Os anos 80-90: Década perdida para o Brasil – A estagnação político-econômica

By | maio 26, 2011 at 3:09 pm | No comments | Barbara Lopes, Colunistas | Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Até os anos de 1980 a taxa de crescimento do Brasil era considerada estável, porém, à medida que a inflação vinha apresentar níveis bem elevados, a economia, praticamente, estagnou¹. A razão do processo inflacionário no Brasil pode ser considerada uma questão ampla e complexa².

De acordo com Baer (1995), um dos principais fatores que contribuíram para seu crescimento pode estar ligado tanto à estrutura institucional brasileira como ao comportamento de seus componentes.

Estes dois fatores, em tese, explicariam a explosão inflacionária desde 1973. A década de 80 seria um período de inflação crescente e políticas macroeconômicas caóticas.

O segundo choque do petróleo (1979) duplicou seu preço, houve um substancial aumento dos juros nos Estados Unidos, somado à contínua queda nas relações de trocas comerciais mundiais, tornaram a década de 80, uma década custosa aos cofres públicos, além de gerar tensões sociais que agravavam a relação Regime-Sociedade.

O desempenho da economia nacional durante Governo Figueiredo (1979-1985) foi bastante irregular. Entre 1979-84 a renda per capita declinou 25%, o percentual das pessoas com renda domiciliar per capita inferior a linha de pobreza aumentou de 38,78% em 1979, para 48,39% em 1984.

Entre os anos 1970-90 já haveríamos desembolsado quase 276 bilhões de dólares em juros e amortizações. Ainda assim, a dívida bruta externa do país situava-se em 123 bilhões de dólares. Do total desembolsado, 236 bilhões de dólares foram pagos entre 1980-90 (PIRES, 2010, 246).

Em 1982 o Brasil pediu socorro ao FMI, porém o fechamento das linhas de crédito dificultou os ajustes dos juros internos, os quais poderiam ter sido minimizados com os empréstimos.

A situação cambial “beirava a insolvência”, como dito por Pires (2010), o autor ainda ressalta que o país teve que honrar aproximadamente 20 bilhões de dólares entre amortizações e juros, ante um superavit comercial de apenas 780 milhões dólares.

Como ressaltou Filgueiras (2000) o resultado desse processo de exportação de capitais foi avassalador para o Brasil. Nossa capacidade produtiva já estava muito aquém do seu potencial pleno quando os primeiro índices indicando o aparecimento da “crise da dívida”.

Portanto, “a redução da demanda interna preconizada no FMI, e adotada pelo Governo brasileiro como recursos para diminuição das importações teve efeito avassalador sobre a atividade econômica, o emprego e a renda” – Como explicitado na Tabela 5 –. Adicionalmente, assistíamos o arrocho salarial, o desemprego, o corte de crédito para a produção agrícola e à ampliação do atraso do tecnológico no setor industrial.

Os resultados desta nova fase de desenvolvimento brasileiro pós-choque do petróleo (1973), e a repercussão das avassaladoras crises externa e interna do início da década de 80, provocaram uma enorme insatisfação em todos os segmentos da sociedade, acirrando as tensões sociais existentes no país, como expôs Filgueiras (2006), tal descontentamento se expressou entre outros eventos:

(…) Na   constituição do  Movimento dos Trabalhadores  Sem Terra  (MST), criação da Central única dos Trabalhadores (CUT), fundação do Partido  dos  Trabalhadores (PT) e na realização de cinco greves gerais entre 1983 e 1989 (…).

FILGUEIRAS, 2006a, p.181;

A partir deste cenário, na esfera político-econômica, a nova fase democrática brasileira trouxe consigo grandes desafios, os principais eram: a dívida externa, o déficit público e a inflação.

Para o novo governo o ato emergencial a ser executado, sem dúvidas, era a procura por uma estabilização econômica durável. Todavia, durante a administração do presidente José Sarney (1986 – 1990), não havia de fato um projeto estratégico de longo prazo, além disso, a falta de coesão sociopolítica dificultou a implementação e o desenvolvimento de reformas de curto prazo, predominaram os planos de estabilização econômica – Plano Cruzado (1986/87)³, Plano Bresser (1987)4 e Plano Verão (1989)5 –, cujos resultados foram pífios.

Sarney saiu do governo e no final dos anos 80 observam-se projetos distintos em disputa na corrida presidencial, em um contexto no qual o país beirava hiperinflação e o tom de desesperança era dominante.

De um lado, começou a ganhar força, refletindo a ascensão dos movimentos sociais nas cidades e no campo, um projeto reformista, cujas principais bandeiras eram a reforma agrária, a suspensão do pagamento da dívida externa, a retomada do crescimento econômico, o aumento do emprego e expansão dos direitos sociais.

A candidatura de Luis Inácio Lula da Silva, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), as eleições de 1989 expressam esse projeto, que pode ser sintetizado pelo slogan da campanha: “Terra, Trabalho e Liberdade”.

De outro lado, Fernando Collor de Mello, com enorme apoio da imprensa, ganhou crescente espaço a partir de seu programa calcado na moralização da política e dos serviços públicos, e de alinhamento às propostas Liberais de abertura e desregulamentação das Economias nacionais, que ganhavam rápido terreno em escala mundial, naquele momento. Os setores conservadores viram em Collor, a “tábua de salvação” contra o avanço da esquerda, embora, nem todos estivessem convictos do caminho a trilhar.

A resolução do impasse, como sabemos, foi a vitória de Collor nas eleições de 1989.


[1] Esta década foi marcada por um desempenho econômico tão desfavorável, que suscitou interpretações divergentes sobre as razões desta performance. Entre tantas, podemos destacar a interpretação que contempla os economistas críticos do ajuste externo da economia brasileira. Como cita Carneiro (2002), uma síntese de suas posições encontra-se em Brasil (1987a), no qual se conclui que as tentativas de retomar o crescimento econômico e melhorar a distribuição da renda, realizadas em meados da década de 1980, esbarraram na restrição externa, ou seja, na imperiosidade de gerar elevados superávits comerciais para fazer face ao serviço da dívida. Observando esta questão em uma perspectiva ampla, Cardoso de Mello (1984) assinala a inconsistência temporal entre o crescimento das exportações, o principal fator para a geração e sustentação de superávits, e a transferência de recursos ao exterior.Isso porque o bom desempenho das primeiras dependeria da renovação tecnológica do parque produtivo nacional, num contexto internacional de aceleração do progresso técnico.Tal período de ajustamento recessivo comprometeu o crescimento sustentado do país em uma perspectiva à longo prazo.Para mais detalhes acerca deste assunto ver, CARNEIRO, 2002a, p. 141-145.

[2] A origem da inflação no país é uma questão que envolve inúmeros fatores. Além de não ser consensual entre os estudiosos, ela é repleta de conjunturas que contribuíram para seu agravamento ao longo dos anos. Podemos destacar a visão de Baer (1995 p.136-140), que escreveu que a natureza da inflação brasileira tem dois pontos de vistas. De um lado, há a tradição clássica ortodoxa e, do outro, os “neoestrturalistas”. Enquanto a primeira “escola” apontava as políticas monetárias e fiscais (como as políticas de stop and go), os choques agrícolas e uma taxa de crescimento baixa e inconstante como algumas das principais causas do processo inflacionário brasileiro; os “neoestrturalistas” apontavam a inflação inercial (aquela em que a inflação presente é uma função da inflação passada. Deve-se à inércia inflacionária, que é a resistência que os preços de uma economia oferecem às políticas de estabilização que atacam as causa primárias da inflação. Seu grande vilão é a “indexação”, que é o reajuste do valor das parcelas de contratos pela inflação do período passado). Tal inflação era aprofundada pelo período de recessão, desta forma, tal “escola” a indicava como maior causa da explosão inflacionaria no país.

[3] A estratégia era combater a inflação por meio do crescimento de mercado interno. Lançado em 28/02/1986. Obteve sucesso à curto prazo somente.Com o plano não deu certo, um de seus formuladores, o Ministro da Fazenda, Dílson Furnalo renunciou em 1987.Em abril deste mesmo ano Luis Carlos Pereira-Bresser é empossado em seu lugar, com o desafio de montar um projeto a longo prazo.

[4] A estratégia era estimular as exportações, realinhar os preços relativos e pagar os juros da dívida externa. Seu objetivo era deter o processo inflacionário e evitar a hiperinflação. O plano entrou em vigor a partir de junho de 1987, e assim como o plano anterior, teve sucesso apenas à curto prazo, desta forma, em dezembro daquele mesmo ano, Bresser-Pereira renunciou.

[5] Sob o comando de Maílson de Nóbrega, houve uma reforma monetária, conhecida como “plano verão”, e foi instituída em 14 de janeiro de 1989. A crítica ao plano verão baseava-se no argumento de que ele tornava as expectativas inflacionárias dependentes do sucesso das políticas fiscal e monetária no dia a dia constituindo-se em passo atrás com a relação á experiência heterodoxa já acumulada em erros anteriores, de fato o plano fracassou rapidamente (PIRES, 2010a, p.260)

Por Bárbara Lopes

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